segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Eu sei o que você fez no outono de 2018, Katherine

Em 2018, eu havia rascunhado uma postagem aqui no blog com o seguinte título: "eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida", devidamente inspirado (levemente puxado para o que as pessoas chamariam de "plágio" por eu não ter tido criatividade o suficiente para criar um título original) em Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida, um filme que eu se quer assisti, mas pretendo só porque tem a Clarice Falcão como personagem principal. Basicamente, a postagem trata-se de uma pequena história, uma espécie de conto que eu nunca terminei. Olhando para esse rascunho agora, dois anos depois, sinto que eu queria refletir minha confusão interior naquelas palavras. Afinal, 2018 foi um ano confuso: foi meu último ano do ensino médio, foi o ano em que eu fiz o ENEM para valer, foi o ano em que comecei meu tratamento psiquiátrico e foi o ano em que tentei fazer aquilo. Eu não gosto de falar sobre aquilo porque eu sempre acabo chorando, por mais que seja necessário recapitular os acontecimentos do passado às vezes, mas a resposta é sim, eu tentei fazer aquilosim, eu tentei suicídio; e sim, às vezes eu ainda penso em fazer isso de novo. Nunca pensei que eu, tendo um corpinho tão pequeno e magricelo, carregasse uma dor tão grande e quando eu penso que foram pequenas coisas que fizeram com que esse tsunami de emoções colidisse contra mim, eu automaticamente me julgo alguém que não tem motivos o suficiente para ter depressão. O problema é que eu aprendi que a depressão não escolhe seu hospedeiro: depressão não tem cor, depressão não tem idade, depressão não tem classe e, aos poucos, as pessoas digerem que depressão é uma doença. Meus pais não sabiam lidar com o fato de eu ter depressão. Às vezes eu paro para pensar que até hoje eles não sabem lidar muito bem com isso, já que somente minha avó materna havia apresentado um caso de depressão antes de mim. Acho que posso dizer que eles só levaram isso a sério quando houve a possibilidade de internação. Minha mãe chorou e meu pai a acudiu enquanto eu me questionava o porquê de insistir em permanecer aqui. Eu escrevia bastante porque constantemente me sentia mal, tanto que há relatos em documentos salvos tanto no computador quanto no bloco de notas e aplicativos de escrita no meu antigo celular. Comecei a escrever minha carta em 2018 e eu nunca a terminei porque sabia que quando a terminasse, eu não aguentaria mais. Nela, eu pedia desculpas às pessoas próximas, agradecia pelos ensinamentos, pelas boas memórias, pelos bons sentimentos e declarava minhas últimas juras, sejam elas de amor ou não. Eu pedia desculpa à minha prima, na qual é muito apegada a mim, por não ter sido forte o suficiente para vê-la crescer; eu dizia à minha vó que eu finalmente veria meu vô depois de tanto tempo; eu dizia ao meu pai o quão suas palavras e inúmeros tapas ao longo da vida me machucaram; e tudo aquilo parecia tão normal para mim. Era normal acordar não querendo ter acordado; era normal passar o dia inteiro sem comer simplesmente porque eu não conseguia sair da cama; era normal pensar que a morte seria minha salvação desse inferno que era a vida. Eu me deixei abalar inúmeras vezes: parei de tomar os remédios em um ato de autossabotagem porque me sentia doente ingerindo aquelas pílulas diariamente, já planejei aquilo mais vezes do que posso contar e confesso que tenha recaídas de vez em quando, mas, felizmente, de acordo com Edna Mode, a personagem mais icônica de Os Incríveis: "quem vive de passado é museu, o futuro a gente faz agora". Desde que ultrapassei a marca dos 14 anos, eu passei a viver no passado e eu não conseguia me imaginar futuramente, tanto que há algumas postagens aqui no Indie em que falo sobre meu medo de ingressar no ensino médio e bom, no final das contas, eu acabei sobrevivendo a essa fase da vida e agora estou prestes a dar meu primeiro passo no curso de Escrita Criativa em março de 2020. É estranho pensar que, dentro de dois anos (que parece ser um espaço de tempo tão pequeno), o quão as coisas mudaram: terminei o ensino médio, ingressei no ensino superior, comecei a namorar (algo que eu nunca pensei que fosse acontecer, pelo menos, não nessa idade), tive mais uma oportunidade de dar vida aos mais diversos personagens nos palcos e ainda voltei a dar meu ar da graça na internet, seja reclamando do meu namorado no Twitter ou falando o que penso aqui no blog. Sinceramente, às vezes tenho a impressão de que passei do fundo do poço para o auge da felicidade rápido demais. Sei que esse ápice não vai durar para sempre, mas por enquanto estou aproveitando o máximo que posso e espero que você, que talvez esteja passando por algum momento difícil agora, encontre a luz que precisa para iluminar o seu caminho assim como eu encontrei.

8 comentários:

  1. nossa. eu não comento muito, mas senti uma necessidade gritante de fazer isso agora.
    tenho que dizer que chorei lendo o post, porque simplesmente me vi em cada uma das suas palavras. é muito complicado — pra não dizer horrível — viver cada dia achando que carregar sentimentos ruins é algo normal. acho que não tem pior sensação do que essa, sabe? de não reconhecer o seu 'eu' de antes porque agora tudo o que conhece é a depressão.
    de qualquer forma, eu fico muito feliz por saber que você está melhor agora e que as coisas estão começando a dar certo pra você. desejo muita sorte com o seu namoro e principalmente com o seu curso, você merece (leio todos os posts e, sim, você merece muito) ♥.

    era só isso mesmo. precisava comentar alguma coisa — qualquer que fosse.

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    1. Eu vejo você por aqui de vez em quando, Hye. Gosto de ouvir sua opinião quando você se manifesta.
      Eu me sinto mal em saber que tu se identificou com isso porque dói, sabe? Eu não desejo isso pra absolutamente ninguém nesse mundo. Realmente, é horrível não se reconhecer, ainda mais quando você acaba parando para pensar em como você era antes e depois.
      Obrigada pelas boas energias. É sempre bom ler esse tipo de coisa (mesmo que seja de pessoas que você não costuma falar todo dia).
      Li seu post no sunline e espero que você melhore também, viu? Se cuida e não desista.

      Beijos e até mais!

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  2. Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida é um filme que não é pra qualquer pessoa. Eu mesma adorei o filme, porque me identifiquei muito com a personagem principal, perdida no meio da entrada para a vida adulta, os conflitos com os pais, as dificuldades na vida amorosa, tudo... Mas é um filme bem parado que me fez querer desistir de assistir várias vezes. Eu recomendo, mas é um filme paradinho...

    Infelizmente uma vez que você lida com o suicídio, é difícil ele ir embora. Gruda na cabeça igual chiclete no cabelo. Há dias melhores, há dias em que a gente nem pensa, que a gente até se pergunta "como um dia eu quis não querer viver?", porque a ideia é absurda. Mas infelizmente volta, e o melhor que a gente pode fazer é aprender a lidar. Espero que você consiga.

    Fico feliz que você esteja vivendo uma fase bem positiva da sua vida. É aquele clichê: a vida é feita de altos e baixos, e é ótimo poder aproveitar quando as coisas estão bem, né?

    Tudo de bom pra você, Kathhi ♥
    Beijinhos. Míng Yuè

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    1. Prevejo eu me identificando bastante com o filme só pelo breve resumo que você fez, Max. Até agora não vi o filme, mas estou pensando em fazer isso no final de semana.
      Realmente, suicídio é algo que eu se quer consigo arranjar uma palavra para descrever. Às vezes eu penso que o adjetivo "confuso" seria uma boa palavra, mas acho que a confusão não levaria à um caminho tão obscuro.
      Felizmente, com a ajuda da terapia, tenho lidado com esse tipo de pensamento de um jeito diferente se comparado a 2 anos atrás, em que eu poderia ser considerada alguém mais imatura e impulsiva.
      É clichê dizer isso, mas é bom estar bem e, por mais que isso não dure para sempre, eu tenho consciência de que somos assim simplesmente porque somos humanos.
      Tudo de bom pra ti também, Max <333

      Beijos e até mais!

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  3. eu queria dizer que eu nao tenho a menor ideia do que eu to fazendo com a minha vida é legal ok beijo t amo

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    1. Vou assistir o filme esse final de semana e depois te chamar no WhatsApp pra gente debater sobre o assunto, tá bom? Tá bom. Beijo, também te amo, Joaninha ;u;

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  4. Lutei contra a depressão desde criança e hoje tenho dias melhores. É muito louco como achamos que é normal acordar tendo a vontade de morrer.
    Ultimamente não tenho pensado em morrer, e isso é diferente, é bom. Espero que os dias bons para nós duas durem muito mais tempo

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    1. Fico feliz em saber que você está melhor agora, Bruna. É estranho pensar que acabamos nos acostumando com aquilo que um dia nos fez mal.
      Do fundo do meu coração, espero que possamos nos acostumar com a felicidade assim como nos acostumamos com aquilo que nos fez mal um dia.

      Beijos e até mais!

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